Feridas emocionais na infância

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Todos buscamos o pertencimento desde o núcleo familiar e por toda vida.

Um domingo de primavera com todas as características típicas do inverno temperatura baixa, céu nublado, chuva fina e um desejo de permanecer na cama por mais tempo. A programação com a família que incluía atividades ao ar livre é substituída pela reunião de todos ao redor da mesa seguida de atividades lúdicas entre pais e filhos.

O calor da lareira acesa, sua luminosidade e os estalos da madeira em chamas tornam tudo tão aquecido e acolhedor. No meio das brincadeiras, as gargalhadas acompanham as disputas nos jogos, que exploram o conhecimento cognitivo de cada um. De repente, surge uma discussão que acaba em choro do menino pré-adolescente. O abraço dos pais consegue acalmar os ânimos e conter as lágrimas, porém, não impede a recorrência dos comentários a respeito de uma ferida emocional que está se tornando tão profunda quanto antiga para esse menino, que possui uma aparência que desperta – não só nos irmãos como também nos colegas de escola – a atenção para as suas orelhas.

Essa deformidade congênita tão comum, acaba, muitas vezes, produzindo um efeito devastador de autoestima baixa, queda da autoconfiança, tendência ao isolamento e dificuldade de socialização. Quando observamos a reação dos nossos filhos à rejeição e à exclusão, muitas vezes não percebemos o dano causado na sua estrutura psíquica.

Todos buscamos o pertencimento, desde o núcleo familiar, no ambiente da escola, e mais tarde, no convívio social. Esta é uma das necessidades humanas primordiais que todos anseiam e, quando ocorre uma ruptura e afastamento desse desejo – como bem explica o médico psiquiatra e renomado autor, Augusto Cury, acontece um mecanismo nos recônditos da memória por ele denominado de “abertura de janelas killers”, que nos faz ancorar este evento de forma negativa. Esse registro poderá ser ativado inconscientemente em situações similares, levando a um profundo sofrimento. As deformidades físicas induzem ao bullying na forma de exclusão e discriminação por meio de brincadeiras pejorativas, que ativam este sentimento de dor e acarretam um mecanismo recorrente de autoimagem distorcida.

Muitas vezes, em meu consultório, recebo familiares preocupados – e com razão – com a repercussão futura que uma deformidade estética tão visível quanto as “orelhas em abano” podem vir a produzir na estrutura emocional de adultos saudáveis. A cirurgia plástica possui tratamento seguro a partir dos 5 anos de idade, quando a formação estrutural do pavilhão auricular já se encontra completa. A procura precoce para a solução dessa questão estética, na infância e pré-adolescência, é um ato de amor e respeito por seu filho. Neste momento, quando a inteligência emocional está aberta para ser construída de maneira completa e livre da fragmentação que o bullying perpetua para a vida toda, podemos proteger nossos pequenos através de atitudes e escolhas sábias.

Artigo escrito originalmente para a edição de novembro de 2019 da Revista TopView.

Sandro Beira Cirurgia Plástica - Em busca de sentido